quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"Entrou a madrugada, duas horas da manhã, ainda não preguei os olhos. Ajeitei a cama como o de costume, edredom embolado no cantinho gelado da parede, celular carregando, fone de ouvido pronto. Estava tudo arrumado, tudo pronto pra que minha sagrada noite de sono chegasse. Não chegou. De algum modo eu sabia o porque não chegara, sabia porque você não chegara naquela noite, como de costume. Deitei-me, como o de costume, coloquei os fones no ouvido, como de costume, coloquei a melodia para dormir, como de costume, tudo certo, como de costume. Não funcionou. Havia algo errado, mas estava tudo certo, até o gato estava no quarto, ventilador do jeitinho que gosto, tudo como costumava ser, como de costume. Não funcionou e sabia o porque. Estranhei o fato de não conseguir dormir, estranhei meus olhos abertos como janelas escancaradas, estranhei minha mente ainda na ativa, estranhei o estranho, estranhei esse estranhamento todo. Sabia bem o que estava errado, era ela, a melodia. Era a melodia errada, era uma lista de musicas, todas erradas. Eram notas, batidas, ritmos, e vozes erradas. Vozes. Ah, as vozes! Vozes erradas, devo dizer até, erradíssimas. Eram vozes de cantores afinados, vozes no tom certo, obviamente cantores natos, mas num erro tenebroso no qual não me permitia dormir, no qual aquele som tinindo em meus ouvidos não encaixava, não acertava. Ah, aquelas vozes, não estava certo, era isso sem dúvida, eram as vozes. Não eram elas, não deviam ser elas, estava errado, não poderiam ser elas ali, no meu ouvido, naquela madrugada. Mas qual seria o correto então? Qual seria a voz certa? Qual seria o tom certo? Qual seria a melodia certa? A resposta esta naquele timbre meio menino, meio moço, no vibrato daquela risada, nas mil notas daquela fungada, no ritmo daquele sotaque contagiante, na letra perfeita daquela melodia: “meu sol”, “meu tudo”, “eu te amo”, “mô”. Havia letra musical mais linda do que esta? Essa é do tipo que ecoa por horas, dias, semanas, meses na cabeça e não enjoa. Era a sua voz que faltava, aquela voz ,
romântica e sonífera, era ela. Era ela que faltava. Era a falta dela o maior erro dessa madrugada. Era ela, era você que faltava."

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