Ela resolveu ligar, depois de muitas noites sem dormir, ela
discou aquela sequência de números que lhe pareciam uma música e
decidiu, finalmente, apertar o botão certo ao invés de cancelar a
discagem. Já era tarde da noite, ela temia o que iria ouvir,
mas, nada seria pior do que aquele barulho silencioso que a vinha
preenchendo durante tempos. Cada bipe parecia uma eternidade, ela
torcia pra que desse na caixa de mensagem ou que a ligação caísse e ele
não quisesse retornar, mas, não. Ele atendeu.
- Alô?
Com a voz mais rouca e cansada ele soltou uma espécie de ruído que pudesse soar como algo relacionado a um ‘oi’.
- Olha, eu sei que está tarde e que você provavelmente está dormindo, mas, eu preciso falar..
Ele a interrompe.
- Um minuto, eu preciso atender outra ligação.
- Tudo bem.
Ele sempre o fazia, pedia pra que ela esperasse e colocava qualquer
outra ligação em chamada principal. Ao ouvir o vácuo da ligação, ela
travou o choro, colocou toda a coragem em sua voz, que já era pouca, e
começou a falar.
- Eu liguei por que eu de fato precisava falar, precisava que
você me ouvisse, precisava que você me dissesse o por que de tudo isso. Eu excluí o seu número da minha lista, mas, ele ficou na minha cabeça que nem música de propaganda eleitoral. Eu rasguei todas as fotos, as lembranças, e um dia me pediram pra desenhar alguém e por algum raio de motivo eu desenhei você. Comecei
a me perguntar o real motivo pra tentar tirar da cabeça e só ter cada
vez mais no meu coração, o real motivo pra eu precisar ouvir sua voz pra
dormir bem, e o real motivo pra eu te odiar todos os dias, mas, te
querer bem do meu lado. Eu já te vi com outras, ao mesmo tempo
que eu sentia raiva eu me sentia bem, me sentia feliz por ver que cada
nova garota tinha um pedaço antigo de mim. Você saiu com o meu sorriso numa procurar ridícula de encontrar minha gargalhada,saiu com os meus olhos numa busca incessante de enxergar o meu olhar, saiu
com o meu corpo num desejo insaciável de ter pra si o meu abraço e ao
mesmo tempo que te ver com todas as minhas partes me trazia vigor, eu
senti nojo. Era a nossa história, aquela que eu passei dias escrevendo, e você preferiu vivê-la com partes minhas do que comigo por inteira. Você
chegou a se conformar com alguém que tinha o meu jeito de falar, chegou
a se sentir bem por que ela devia ter o meu cheiro e trazia consigo o
meu mal humor seguido da minha graça, mas, sabe o que te prendia a
tantas doses de bebidas fortes e a inúmeras carteiras de cigarro? Elas não eram eu. Hoje
seria um dia bom, um dia daqueles frios em que eu olharia pra chuva e
sentira você do outro lado da sala me olhando, se mostrando meu
cobertor, seria um dia quente entre nós que apartaria todo o frio lá
fora, mas, a sua cama está ocupada e a minha sala está cheia de mais pra caber nós dois. O
sol já está quase nascendo, iluminando o meu quarto desarrumado e a
minha cara molhada encostada no travesseiro. O dia já está quase
nascendo e eu me encontro aqui, com as mesmas perguntas que me fiz
durante todas as noites em que dormi sem o meu “boa noite” favorito ou sem o “sonha comigo por que eu vou estar pensando em você”. Por que eu? Por que você? Por que nós? Tão diferentes, tão opostos, eu nem deveria ter te ligado. Nunca
me imaginei falando com a chamada em espera do telefone, ouvindo esse
silêncio inútil e dizendo pra quatro paredes e um aparelho telefônico
que eu sinto a falta de um idiota que está do outro lado da linha
falando com alguma das minhas partes que resolveu encontrar ou que
provavelmente está dormindo num sono tão pesado que se esqueceu de mim,
aquela que esperou até o último minuto antes do sol chegar. Agora
eu já disse tudo, sinto muito se você estava ocupado de mais pra ouvir,
tenha uma boa noite meu amor, ou celular, já me perdi em meio a tantos
bipes e mal sei com quem eu falo. Espero que a sua vida seja
grande o bastante pra você sentir minha falta e se virar em mil pra se
suprir com rastros do meu sorriso que poderiam ser teus. Se cuida, por que, por mais que não haja merecimento, você ainda é tudo pra mim.
Ela desliga, fecha os olhos, percebe as lágrimas escorrendo. Prefere
cobrir o rosto com o cobertor que tinha o cheiro dele, abraçar o urso
de pelúcia que ocupava o lugar dele, e coloca a música que ele dizia ser
deles. Num ritual masoquista ela começou a se desintoxicar de
tudo que o podia lembrar, no auge do seu grito silencioso o vento soprou
forte e uma sombra magra e alta estava parada em meio a sua porta. Ela
não precisava de luz, aquele cheiro de mil cigarros pra encorajar e
várias doses pra não gaguejar eram típicos daquilo que ela chamava de
amor.
- Merda! Eu não acredito que esqueci de trocar as fechaduras da porta, e você, por que ainda tem essa merda de chave?
- Olha, me escuta você, o que deu pra desligar o telefone na minha cara?
- Eu não desliguei, caiu, na verdade, a minha vontade de te esperar desocupar caiu.
- Eu ouvi, cada parte, cada palavra, me contive com suspiros e agora você vai me ouvir.
- Que palavra? Olha, eu deixei o celular perto da televisão ok? Ponha-se daqui pra fora por que esse cheiro está…
- Te fazendo me querer de volta? E a minha voz, que você disse
ser sua preferida, ela está te deixando com frio e te fazendo precisar
do meu abraço? E o meu cabelo? Ele está te lembrando de casa? Da gente?
- Você não tem esse direito! Sai da minha casa, do meu quarto, da minha cabeça, do meu coração e da minha vida.
- Todas as vezes que eu tentei sair algo meu puxou de volta. Os teus sorrisos, as suas mensagens que nunca chegaram, as suas ligações incompletas e o teu cheiro que não sai da minha roupa. A
propósito, não vim aqui conversar, na última vez em que nos vimos você
esqueceu esse amarrador em cima da mesa, eu só vim aqui trazer.
- Esse amarrador é da sua irmã, foi você quem deu.
- Droga.
- Suas desculpas sempre tão esfarrapadas, tão suas, que me fazem querer rir da sua personalidade vez infantil e vez adulta.
- Olha, você até hoje não aprendeu a se cobrir direito…
Ele se aproximou da cama dela e puxou a coberta como se a mesma
fosse uma folha, quanta habilidade em fazer aquilo que ela não
conseguia, a desamarrotou e cobriu a garota, em meio a tanto pano a
pequena menina parecia parte do cenário. Ele sentou na ponta do
colchão, secou as lágrimas que teimavam em escorrer, tirou a jaqueta
molhada, jogou no chão do quarto que costumava a ser deles, beijou a
ponta do nariz dela, colocou o cabelo dela para o lado contrário ao que
era de costume deixar, a apertou contra si e disse num sussurro:“Nem
todas as suas partes seriam tão boas juntas quanto você por inteiro,
minha pequena, quanto apreço tenho pelo seu cheiro. Ele grudou nas
minhas roupas, na minha cama, e quando dei por mim ele já havia se
tornado o meu cheiro também. Em todas as noites em que a cama estava
vazia de você e cheia de pedaços teus, eu me perguntei o que fazia lá
que não estava cá, do seu lado, no meu lado da cama. Eu parei de me
perguntar e passei a me contentar, mas, agora a resposta me veio veloz,
forte, como a brisa que está la fora. O meu medo era te ter tanto dentro
de mim a ponto de não saber discernir o que era eu e você, medo de
olhar pro meu eu e só ver nós. Eu tinha medo de te ter e medo de te
perder, então preferi me apegar as tuas partes e me dizer esquecer de
você, que já era nós.”
Ela entrelaçou suas mãos no cabelo dele, o puxou pra perto e soltou num sussurro:
- Você está atrasado, mas, eu esquentei o seu lado da cama. Chega perto, mas, por favor, só chega se for pra ficar.
- Eu nunca saí, por isso o meu lado da cama continua o mesmo, o meu amor guardou esse lugar

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