fugiria
no meio da noite pra te visitar. Jogaria pedrinhas na sua janela até você
ninguém ouvir, embaixo das cobertas. E eu só iria embora ao amanhecer. Iria
pra minha casa, trocaria de roupa e voltaria logo em seguida, uma meia-hora
depois, te chamando pra tomar café. Diria “senti tanta saudade” quanto te
encontrasse, mesmo tendo te visto minutos atrás. Quer dizer, eu sentiria sua
falta antes do beijo de despedida, mas mesmo assim. Nos dias em que não
desse pra fugir pra tua casa, eu te ligaria, só pra não perder o costume de
passar a madrugada falando com você. Às vezes faltaria assunto, nós
ficaríamos em silêncio, e eu sorriria comigo mesmo no escuro tendo a certeza
de que eu seria feliz o resto da vida só por ouvir sua respiração. Assistiríamos
um filme todo sábado. Um dia no cinema, outro em casa, como um ritual de
casal. Em casa, discutiríamos o filme todo sobre os personagens e você
brigaria comigo por eu dar risada nas partes tristes ou assustadoras. No
cinema, eu não te deixaria assistir. Uma parte do tempo estaria te
provocando, na outra você estaria me reprendendo por eu jogar pipoca nas
pessoas sentadas na frente de nós e o resto eu passaria te beijando. Nas
paredes do meu quarto, teriam fotos tuas, fotos nossas espalhadas. A foto de
tela do meu celular seria você sorrindo e meu plano de fundo do computador
também. Você diria que aquilo serviria pra me fazer não te esquecer, e eu
pensaria comigo mesmo sobre como você é boba por pensar que eu te
esqueceria por um segundo sequer. Um dia talvez até morássemos juntos.
Você brincaria comigo sobre dormirmos em quartos separados, dizendo que
não há amor no mundo que te faça suportar meus roncos. Eu diria que você
argumento. Compraríamos uma secretária eletrônica e discutiríamos sobre
quem gravaria a mensagem. No final, gravaríamos os dois juntos. No meio da
gravação, começaríamos a discutir. Nossos amigos iriam nos questionar sobre
a mensagem, e nós apenas riríamos. Tiraríamos um fim de semana pra mudar
a cor das paredes. Você brigaria comigo o tempo todo, tentando me fazer
entender que eu não posso pintar as paredes na diagonal, e eu responderia
dizendo que a parede era minha, portanto eu faria o que quisesse com ela.
Você bufaria, comentaria sobre o quanto eu sou insuportável e daria as costas
guerra, e no final não sobraria tinta o suficiente pra acabar as paredes.Aliás,
viveríamos em guerra. Guerra de comida, guerra de travesseiro, guerra
pra saber quem ama mais. Essa última guerra, eu não deixaria você ganhar.
(…)



