“O amor chega em uma hora e eu ainda não consegui comer, escolher a
roupa, arrumar minha franja, decidir se já posso amar. O amor chega em
uma hora e vai quebrar meu gesso mas eu não decidi se os ossos já estão
bons o suficiente. Mas ele vai chegar com trinta martelos e eu vou estar
esperando, forte e decidida, pra receber a porrada. E o ar que vai
entrar. E mais dor. E o ar que vai entrar. E quem sabe então alguma
felicidade, já que fui corajosa. Quem sabe a felicidade seja a harmonia
entre a dor e o ar que entram pelos poros que temos coragem de abrir? E
quem sabe só o amor seja o martelo possível?Escrevo isso e choro. Porque
quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar morro. Porque se não
acabar morro. Porque sempre levo um susto quando te vejo e me pergunto
como é que fiquei todos esses anos sem te ver. Porque você me entedia e
dai eu desvio o rosto um segundo e já não aguento de saudade. E descubro
que não é tédio mas sim cansaço porque amar é uma maratona no sol e sem
água. E ainda assim, é a única sombra e água fresca que existe. Mas e
se no primeiro passo eu me quebrar inteira? E se eu forçar e acabar pra
sempre sem conseguir andar de novo? Eu tenho medo que você seja um
caminhão de luz que me esmague e me cegue na frente de todo mundo. Eu
tenho medo de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me
abrir. E minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo. E
entrarem pelas valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar
do jeito que sou agora. Eu tenho medo de você abrir o espartilho
superficial que aperto todos os dias para me manter ereta, firme e
irônica. Minha angústia particular que me faz parecer segura. Eu tenho
medo de você melhorar minha vida de um jeito que eu nunca mais possa me
ajeitar, confortável, em minhas reclamações. Eu tenho medo da minha
cabeça rolar, dos meus braços se desprenderem, do meu estômago sair
pelos olhos. Eu tenho medo de deixar de ser filha, de deixar de ser
amiga, de deixar de ser menina, de deixar de ser estranha, de deixar de
ser sozinha, de deixar de ser triste, de deixar de ser cínica. Eu tenho
muito medo de deixar de ser.”
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