
Gostava das tardes quentes de ensaios, do cheiro de madeira, breu e suor
que só as salas de ballet têm, gostava de como meu rosto ficava
vermelho após um longo dia de ensaio, gostava até dos calos que as
sapatilhas de ponta faziam no meu calcanhar. Como era viciante essa dor,
esse ardor, que no fim gerava um alívio imenso que era acompanhado de
um copo d’água gelado. Como era boa a sensação da água descendo pela
minha garganta e refrescando o meu corpo quente e exausto. Gostava até
da pressão nas vésperas de apresentações, das broncas do professor por
estar fazendo algo errado, das piruetas que eu conseguia fazer. Ah, como
eu me arrependi de não ter tentado fazer algum passo, como eu me
arrependi de ter feito aulas preguiçosamente, como eu me arrependi de
não ter me esforçado mais, mais e mais. Como eu gostei de ter chegado
onde eu cheguei. É tão bom o frio na barriga que eu sinto todas as vezes
por trás da cortina preta no palco, e como é gratificante dançar e
fazer bem feito no palco para depois ver o sorriso de satisfação do
professor. O mesmo sorriso de satisfação de quando conseguia fazer um
passo considerado difícil, ou aprender uma variação que achavam que eu
nunca seria capaz de dançar. Vou me superando aos poucos. Vou
surpreendendo a mim e aos outros a cada dia, porque não existe trabalho
bem feito se não houver esforço. No fundo eu gosto da dor, das lágrimas,
dos erros. Espero que essas sensações se fixem na minha memória para
sempre, para que um dia eu me lembre dos detalhes do que eu vivi como
bailarina. Nunca sentirei nostalgia de uma sala de ballet, eu não
pretendo me afastar deste ambiente tão cedo, porque no dia em que eu não
puder dançar, eu prefiro estar morta.
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