sexta-feira, 18 de novembro de 2011




Gostava das tardes quentes de ensaios, do cheiro de madeira, breu e suor que só as salas de ballet têm, gostava de como meu rosto ficava vermelho após um longo dia de ensaio, gostava até dos calos que as sapatilhas de ponta faziam no meu calcanhar. Como era viciante essa dor, esse ardor, que no fim gerava um alívio imenso que era acompanhado de um copo d’água gelado. Como era boa a sensação da água descendo pela minha garganta e refrescando o meu corpo quente e exausto. Gostava até da pressão nas vésperas de apresentações, das broncas do professor por estar fazendo algo errado, das piruetas que eu conseguia fazer. Ah, como eu me arrependi de não ter tentado fazer algum passo, como eu me arrependi de ter feito aulas preguiçosamente, como eu me arrependi de não ter me esforçado mais, mais e mais. Como eu gostei de ter chegado onde eu cheguei. É tão bom o frio na barriga que eu sinto todas as vezes por trás da cortina preta no palco, e como é gratificante dançar e fazer bem feito no palco para depois ver o sorriso de satisfação do professor. O mesmo sorriso de satisfação de quando conseguia fazer um passo considerado difícil, ou aprender uma variação que achavam que eu nunca seria capaz de dançar. Vou me superando aos poucos. Vou surpreendendo a mim e aos outros a cada dia, porque não existe trabalho bem feito se não houver esforço. No fundo eu gosto da dor, das lágrimas, dos erros. Espero que essas sensações se fixem na minha memória para sempre, para que um dia eu me lembre dos detalhes do que eu vivi como bailarina. Nunca sentirei nostalgia de uma sala de ballet, eu não pretendo me afastar deste ambiente tão cedo, porque no dia em que eu não puder dançar, eu prefiro estar morta.

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