Vovô ama vovó. É um amor muito lindo, maduro e real, mas todos sabemos, pelo
menos eu e vovó (e agora quem ler isso), que nem sempre foi assim. Adoro ouvir
as histórias do meu vô, elas são bem divertidas, me sinto num filme da sessão da
tarde. Um dia eu estava fuçando a velha gaveta do vovô e achei várias coisas
antigas, inclusive uma certa foto. Ela estava meio amarela, meio cinza e meu vô
ainda tinha cabelo. Nessa foto estavam meu avô, dois amigos e uma menina linda!
Fiquei meio de cara, assumo. Vovô estava abraçado com ela. Não era qualquer
abraço. Não entendi ! Para mim vovô e vovó sempre estiveram juntos. Resolvi
perguntar a ele o que aquilo significava.
Vovô riu
Eu fiquei
confusa.
Ele riu e me olhou com aquele olhar de velho sábio, me mandou sentar
e resolveu me ensinar uma boa lição.
- Esta foto é muito antiga. Eu tinha 15
anos e ainda tinha cabelo – eu não pude conter o riso, mas imediatamente parei
de rir e dei toda atenção – Eu era muito jovem, muito moço e não tinha a mínima
noção de amor. Essa menina se chamava Dulce e foi meu primeiro amor – vovô amou
alguém antes da vovó? – Ela era bem bonito e tinha 17 anos. Quando a vi pela
primeira vez eu fiquei louco. Sempre fui muito confiante e muito malandro, mas
Dulce apareceu. Ela tinha um sorriso lindo e belas pernas. Era inteligente e não
era a mais bonitas das moças, mas sem dúvida a mais atraente. Eu a conheci na
saída da escola, ela estava passando com aquela saia no joelho e deixou cair o
estojo de maquiagem exatamente na porta da minha escola. Corri atrás dela e vou
confessar que não por causa da minha honestidade de menino. Meninos nessa idade
não são movidos pela honestidade. Mas eu fui! Segurei o braço dela e ela me
olhou com aqueles olhos cor de avelã e entreguei o e lhe entreguei o estojo. Ela
me agradeceu. Nos dias que se passaram fiquei elétrico querendo ver essa menina
de novo, mas ela não passava. Até que numa quinta feira ela desceu a rua
chorando e eu não pude evitar. Mais uma vez eu resolvi me aproveitar da minha
cara de bom moço e fui atrás dela. Eu a encontrei encostada na parede chorando,
soluçando. Eu a acolhi, entreguei meus ombros e uma semana depois, meu amor.
Começamos a sair. Eu estava iniciando o Ensino Médio e ela terminando , me
sentia o máximo por isso. Depois começamos a namorar. Eu era um devoto, ela me
fazia de escravo, eu a colocava num pedestal. Escrevi várias cartas , mandei
flores . Era louco de amor! Se eu ficasse sem ver Dulce eu pirava, suava frio,
não queria viver. Ela se tornou a minha vida. Até que um dia o motivo do choro
dela voltou e disse que estava arrependido, que havia cometido o maior erro da
vida dele e então ela voltou pra ele . Meu mundo caiu... Não tinha ânimo algum
... pra nada! Não queria sair e até minhas notas caíram. Eu me isolei , fiquei
triste e chorei todas as noites. Tomei uma decisão : Nunca mais iria me
apaixonar! Quando entre pro exército acabei me enganando. Encontrei uma outra
pessoa. Uma pessoa especial, cheia de sonhos e que me arrebatou... – Ele fez uma
longa pausa
- Fala vô! O que houve ?
- Me casei com ela ... – Ele riu
-
Não vai me dizer que ela também...
- Não ! Essa era diferente . E agora estou
a exatos 45 anos junto dela.
- Ah! Sim...
- Mas e a outra?
- Escute! O
coração tem essas coisas. Você ainda é jovem, mas eu duvido que nunca tenha se
decepcionado. O importante é que você deve saber que o mundo gira, as coisas
mudam... Inclusive o coração. Quando o amor te chamar , atenda... e converse bem
com ele. Quando a ligação terminar você se sentirá meio estranha por ter
desligado, vai querer discar de novo o mesmo número,mas lembre que você sempre
pode fazer outras ligações , basta pedir o telefone.
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